Terras da Beira
Semanário








Dossier 3 - A Semana Académica

Tradição centenária

Perde-se na memória dos tempos o ano em que se iniciaram na Guarda os festejos da Academia. Sabe-se, contudo que a tradição terá mais de cem anos e que a Real Academia da cidade teria sido uma das primeiras a serem criadas no País. Era por alturas do Primeiro de Dezembro que decorriam as festas que consistiam, fundamentalmente, na ceia, serenata monumental, cortejo e baile. Em 1988, a Associação de Estudantes do IPG procurou retomar a tradição, interrompida nos anos setenta, embora apostando fortemente na modernidade e nos espectáculos de música urbana.

Longe vão os tempos em que se iniciaram na Guarda as festas dos estudantes. Apesar de ser difícil calcular uma data certa, sabe-se contudo que no ex-Liceu Nacional existiam fitas que teriam mais de cem anos e uma delas teria mesmo sido oferecida pela Rainha D. Amélia.
As manifestações culturais de índole académica, interrompidas em 1973, pouco ou quase nada tinham a ver com o que actualmente fazem os estudantes, com excepção das praxes. Era em Setembro que os caloiros chegavam à Guarda e enchiam, num ápice, as muitas casas de granito do Centro Histórico. A Feira de S. Francisco, nos princípios de Outubro, atraía os jovens estudantes que não conseguiam resistir ao carrocel, aos «carrinhos» e às barracas de jogos e farturas. E era nesta altura que não faltavam clientes às trupes, grupos organizados nunca inferior a três elementos cada um, sempre vestidos a rigor, e chefiados por um veterano (indivíduo com, pelo menos, oito matrículas). Num pequeno texto sobre a «A Guarda e as Tradições Estudantis», publicado numa revista do IPG de Junho de 1988, Cameira Serra e Henrique Martins, contam que «o cerimonial do “rapanço” tinha então lugar em recanto próximo, protegido de olhares indiscretos». Era então que o chefe de “trupe”, adiantam, «munido de uma tesoura de pontas boleadas, iniciava o castigo, dando um número ímpar de tesouradas no cabelo do novato. A seguir, todos os outros repetiam a manobra, através de um número ímpar de golpes de tesoura, inferior ao praticado pelo chefe». Se um caloiro fugia após ter sido tocado, «era posto “debaixo de trupe”, podendo vir a ser rapado em qualquer lugar e a qualquer hora do dia». O caloiro tinha, no entanto, o direito de sair à noite sem ser importunado pelas trupes, desde que fosse acompanhado, de braço dado, por uma dama.
Segundo Cameira Serra e Henrique Martins, a “trupe” era formada junto a um monumento nacional, após o toque de recolher dos soldados do velho quartel, sendo obrigatório todos os elementos trajarem a rigor de preto (sapatos lisos, meias, calças, colete, batina e capa), e camisa de cor branca. «As mangas da camisa deveriam ser arregaçadas e a capa traçada sobre o ombro à D'Artagnan, por forma a ocultar, totalmente a brancura da camisa.» O desrespeito por estas condições poderia levar o caloiro a recusar ser rapado e a desfazer mesmo a “trupe”.
Mas se o caloiro desrespeitava os «sacrossantos princípios da praxe» era julgado. «Recebia a convocatória escrita em papel higiénico, o noviço teria que ser julgado em presença de um “juíz” e dos “advogados”, de defesa e de acusação.» Varrer ou medir com um palito a escadaria da Sé Catedral eram algumas das penas mais vulgares aplicadas aos caloiros. Mas também poderia ser obrigado a aparecer à saída missa, envergando apenas um pijama e transportando uma mala havia quem fosse obrigado a levar, num domingo, durante a saída da missa, em pijama, uma grande mala de viagem, da qual retiraria uma carta que deveria ser introduzida no marco do correio fronteiro à igreja (Sé ou Igreja da Misericórdia).
Mas, apesar de serem implacáveis, as «trupes» de veteranos tinham um grande sentido de cavalheirismo, chegando mesmo ao ponto de fazer o «enterro» ao estabelecimento comercial que não tratasse bem os estudantes. Era nesta ocasião que vinham a lume os maus serviços da cidade, através das reivindicações dos estudantes. «Arrium, porrium, catanórium, este», era a 'lenga-lenga' da altura, em latinório e que também já foi esquecida.

1º de Dezembro: grande festa dos estudantes

Era por alturas do Primeiro de Dezembro que decorria a grande festa dos estudantes, «cada vez mais espevitadas, movimentadas e escalfadas», como era frisado numa das capas do programa das festas de 1969. O pequeno folheto, de 26 páginas de diversas cores, revelava a essência dos principais momentos da festa, desde a serenata monumental, passando pela ceia, tarde desportiva, baile e, claro, o «kurtêjo». «Às horas tantas lá pras tais/Teremos os nossos cumezais/Galinaceas roubadas não serão!...» Era a chamada ceia, que decorria durante o período áureo da praxe, contam Cameira Serra e Henrique Martins, e na qual se comiam galinhas e coelhos «pilhados nos quintais da cidade, sendo particularmente apetecida a carne roubada nas capoeiras dos professores... A orgia era bem regada, consumindo-se o vinho doado na véspera, durante a saída com fitas». E era nesse dia que os estudantes, de capa e batina, percorriam as ruas da Guarda com as mocas e colheres de madeira, guarnecidas de fitas de várias cores, oferecidas pelas raparigas. «Pintadas com dedicatórias e motivos a condizer, as fitas tinham cores geralmente relacionadas com os sentimentos das ofertantes. Assim o amarelo significava desespero; o vermelho, “desprezo”, o roxo, paixão; o cor-de-rosa, amor; o verde, esperança; o preto, ódio e o branco, amizade.»
A marcha, que apenas se detinha nas tabernas para pedir vinho, ía sendo animada com os gritos
de ordem do EFE-ERRE-A e as canções maliciosas, como o «Pingó», «Ai solidão» e «Ó Laurinda». «O cortejo era constituído por carros decorados a preceito, estudantes feitos Sancho Pança, galhardamente montados em burros (roubados, momentaneamente, aos homens do campo que vinham vender à praça) e outros folgazões a pé. Uns levavam altas cartolas, outros iam vestidos de sopeira, com bojudos seios e, os restantes, eram sugestivos gigantones.» Integrados no cortejo seguiam também os caloiros, em pijama, de toalha ao pescoço e com um grande lençol branco pelos ombros. Eram depois «purificados» através do baptismo, celebrado no pio do Chafariz de Santo André. Com um penico de esmalte era-lhe lançada a água fria na nuca.
Foi num destes sacrifícios, considerado por alguns como «desumano mas indispensável à admissão do novato», que um estudante, envergando as vestes de bispo e de anel no dedo, se lembrou de andar a benzer as pessoas com “mijo”. A brincadeira, segundo contou ao TB Arménio Farinha, um dos antigos estudantes, ficou cara nesse ano. A polícia não esteve com meias medidas e decidiu proibir a realização do cortejo.
Pequenas peripécias que fazem o historial da Academia da Guarda e das festas dos estudantes, interrompidas em 1973 e recomeçadas, com nova versão, 15 anos depois pela Associação de Estudantes do IPG. Os alunos do ISACE e da Escola de Enfermagem seguir-lhe-íam mais tarde os passos.