Terras da Beira
Semanário








Dossier 2 - A Polémica do IP2

O caso do túnel da Gardunha
André Martins

Sem de alguma forma se querer pôr em causa a importância do itinerário principal (IP2), não pode deixar de merecer reparo a decisão (sobretudo a forma como foi tomada), relativa ao traçado entre a Soalheira e o Fundão e particularmente no que se refere ao troço que faz tangente à Vila de Alpedrinha e atravessa a Serra da Gardunha em túnel.
É a legislação comunitária e nacional que obriga determinados projectos (como é o caso das auto-estradas e vias rápidas), à realização de estudos prévios ao início das obras para avaliação do seu impacte ambiental.
O estudo de impacto ambiental para o troço referido foi apresentado à Comissão de Avaliação, nomeada para o efeito, que no seu próprio parecer o considerava insuficiente, referindo designadamente que não tinha sido efectuada a caracterização dos usos da água, não tinham sido inventariadas e localizadas as principais nascentes de água e não tinha sido caracterizada a área afectada pelos túneis.
Do processo de avaliação do impacte ambiental faz obrigatoriamente parte a chamada consulta pública que, no caso vertente, não o chegou a ser devidamente, dado que não foi além da fixação de uns editais. Reconhecendo um conjunto de vicissitudes em todo o processo a própria Comissão da Avaliação afirma que, em determinada fase, pensou em solicitar uma (nova) verdadeira consulta pública, mas nessa altura já tinham passado os prazos para se poder pronunciar.
As grandes obras e projectos são em muitos casos inerentes ao desenvolvimento e bem estar do próprio Homem, mas a sua realização pode e deve ser feita respeitando a Natureza, da qual o Homem é parte integrante e depende para viver.
Muitas vezes, o fazer a qualquer preço e a redução dos preços das obras, leva a que se cometam atentados cujos custos, a médio ou longo prazo, são extremamente onerosos e por vezes com danos irreparáveis para a vida local, regional, do País ou até para a humanidade.
A Serra da Gardunha, a Vila de Alpedrinha, a região da Beira Interior e as suas gentes, no mínimo mereciam ser tratadas com mais consideração. Se havia impactes significativos no ambiente com a realização daquela obra era necessário que os interessados (a população), participassem na decisão a tomar. Para tal a Administração deveria ter promovido sessões públicas para informar e esclarecer os interessados.
Além dos impactes na paisagem no património, outras consequências desta obra já se começaram a fazer sentir. Dezenas de nascentes já secaram, afectando o abastecimento para consumo público e para a agricultura. Esperemos que esta forma irreflectida de o Homem se relacionar com a Natureza, no caso do túnel da Gardunha, não venha a fazer de uma região rica em recursos hídricos um local onde se viva com dificuldades por escassez desse precioso recurso natural que é fonte de vida e de desenvolvimento.