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Uma benemérita em Arcozelo da Serra
Estranha condição de estranha

FOTO Não é daqui, não se reconhece na serra. Pouco tem a ver com a rudeza dos montes, com a dureza de carácter. Mas sabe-se ligada à serra e não o desmente. Por isso devota-lhe corpo e alma, num projecto que é tanto de seu como dos outros.

Zilda Ribeiro Borja Santos nasceu em Lisboa e toda a sua vida se passou na capital. Casou com um homem da Estrela e descobriu-se rude como a rocha mais sólida, desvendou forças que não sabia possuir. Após a morte do seu marido, Zilda Ribeiro dedicou-lhe a obra da sua vida, uma biblioteca na sua terra natal. Só Arcozelo da Serra ficou a ganhar, com uma estrutura cultural desta envergadura. E Zilda Ribeiro, porque deu tudo de si, para os outros.

A obra iniciou-se em 1976, a um ritmo demasiado lento para as suas ambições. Os parcos recursos não permitiam exageros e a obra foi correndo consoante as suas possibilidades. A casa era sua, o dinheiro ali empregado também. «Não tive o apoio de ninguém», conta Zilda Ribeiro. Do seu ordenado de professora pouco lhe sobrava ao fim do mês, era quase todo gasto em livros, azulejos, tijolos, cimento, estantes, e a jorna dos homens a dias que ali empregou. Vinha de Lisboa todos os fins-de-semana para uma terra que pouco ou nada lhe dizia, com o intuito de ali deixar «a alma». Ajudava os homens a fazer a obra, carregou sacos de cimento, baldes de massa, subia e descia escadas com azulejos. O seu mini calcorreou inúmeras vezes o caminho de Lisboa até ao Arcozelo, «carregadinho de livros». Levou para ali a sua biblioteca particular, e a do seu marido. Naquelas estantes encontram-se raridades como os Livros das Cortes Constituintes; a Paródia; A Revista do Ocidente de 1878; Ilustração Portuguesa desde 1885 até 1929; Diário das Cortes Gerais- Extraordinárias da Nação Portuguesa- Tomo I a VII, de 1821 a 1822 e Lisboa Antiga, de Júlio de Castilho, de 1936 a 1970. Constam também do ficheiro da biblioteca arquivos de jornais desde a época anterior ao 25 de Abril. Ao todo, a biblioteca já soma perto de sete mil livros, sendo que todos foram comprados por Zilda Ribeiro, «quase todos em alfarrabistas de Lisboa», esclarece.

A biblioteca foi inaugurada apenas em 1992, com o nome de Biblioteca Sílvio Gomes Henriques, o seu marido, seguindo-se a doação à Câmara Municipal de Gouveia, com a condição de que ela fosse directora vitalícia. A princípio abria apenas aos fins-de-semana quando ela se deslocava à aldeia da serra, mas em 1998 abriu efectivamente ao público com um funcionário permanente. Pouco visitada, a biblioteca é um resquício de paz. Também Zilda Ribeiro se tranquiliza quando passa as portas de ferro que ali mandou colocar. Este é o seu santuário, o local onde sabe estar em comunhão consigo, e com a memória do seu marido.

A casa que possuía na aldeia, legado do marido, também foi doada pela antiga professora, para a Associação de Solidariedade dos Professores. A casa do forno e o lagar, também pertença sua, já não levam o seu nome. Doou-as para a criação de um núcleo museológico, com o objectivo de fazer uma ligação cultural entre estas estruturas e a biblioteca.

Zilda Ribeiro tem o seu nome gravado no futuro de Arcozelo da Serra. No entanto, a aldeia continua a ser-lhe pouco familiar, parece que uma estranha condição de estranha lhe foi vincada na sorte.

Maria João Silva


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