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Ainda a subida das taxas de juro

O tema apresentado neste artigo, tem sido alvo, nos últimos meses, de atenção especial por parte de inúmeros órgãos de comunicação social. Tal atenção justifica-se devido aos efeitos da subida das taxas de juro na vida da maioria dos portugueses.

A subida da taxa de juro surge como uma forma de acautelar a inflação que o Euro fraco acarreta. Vários especialistas afirmam que era suposto já termos assistido ao fortalecimento do Euro face ao dólar, uma vez que as condições desse fortalecimento eram a subida das taxas de juro e a recuperação das economias europeias, condições essas que já se verificaram.

À data de 28.08.2000, a taxa Lisbor a 6 meses apresentava o valor de 5,2012% e a Euribor a 6 meses o valor de 5,1160%, ou seja, valores muito além dos apresentados no inicio deste ano. Em 02.02.2000, a Lisbor a 6 meses apresentava o valor de 3,759% e a Euribor o valor de 3,686%.

A subida verificada a nível das taxas de juro, levou já a que ocorresse uma quebra substancial na procura de crédito para aquisição de automóveis ou para recheio do lar.

No entanto, é ao nível do crédito à habitação que existem as maiores preocupações motivadas por esta subida. Enquanto que a generalidade dos chamados créditos particulares ou individuais são contratados no regime de taxa fixa, que se mantém ao longo de toda a vida do contrato, os créditos à habitação utilizam taxas de juro variáveis, sendo a periodicidade de revisão da taxa igual à do indexante utilizado. Por exemplo, um contrato de crédito à habitação que utilize o indexante Lisbor a 6 meses, terá uma periodicidade de revisão semestral, de forma que as prestações do mesmo oscilarão no sentido da subida ou descida, conforme a oscilação daqueles indexantes.

Um empréstimo para aquisição de Habitação, no regime Bonificado e com a bonificação máxima, no valor de 10.000 contos, a uma taxa de 4,5%, pelo prazo de 30 anos acarreta uma prestação mensal de 33 contos nos primeiros meses do contrato. Um empréstimo nas mesmas condições mas a uma taxa de 6,5%, acarreta uma prestação de 43.000$00, na melhor das hipóteses. Digo na melhor das hipóteses porque tudo depende do spread aplicado pela entidade bancária.

Convenhamos que é um aumento elevado. Se a este aumento juntarmos o facto de que os valores médios dos contratos são superiores a 10.000 contos, então podemos concluir que um número elevado de agregados familiares portugueses se vai deparar com uma hipoteca que cada vez mais, exige uma boa parcela dos seus rendimentos.

O que poderá ser feito para atenuar este problema?

Para já, a alteração ocorrida em Abril último na Taxa de Referência do Cálculo das Bonificações, agravou ainda mais o problema dos agregados familiares com rendimentos mais baixos, que possuem crédito à habitação no Regime Bonificado. A descida daquela taxa de 6,5% para 5,5% agravou ainda mais a prestação mensal daqueles financiamentos.

Recorrer ao banco e renegociar o spread aplicado ao empréstimo poderá ser uma solução, no entanto há que referir também que os spreads praticados pela maioria das instituições de crédito já se encontram esmagados por força da tentativa de obtenção de maiores quotas de mercado ou da manutenção das quotas possuídas e, por isso, não podem ser mais reduzidos, sob pena de arrastar a rendibilidade daqueles produtos para terrenos negativos.

Assim, resta-nos uma última solução. Para quem está a pensar adquirir casa com recurso ao crédito, a solução passa por decidir utilizando os cenários mais pessimistas das subidas das taxas de forma a estar preparado para o pior. Já agora, não se esqueça de incluir nesses cenários outros custos que não apenas as prestações mensais do empréstimo. Inclua também todos os encargos que já possui e outros que venha a possuir por força da contratação do crédito, como por exemplo, os seguros obrigatórios.

Para quem já possui crédito, a solução passa por fazer uma gestão criteriosa dos rendimentos familiares. Perante a diminuição do rendimento disponível e caso mantenhamos os mesmos hábitos de consumo, a situação poderá resvalar para o descontrolo e subitamente poderemos ver-nos executados por incumprimento das nossas obrigações de crédito.

João Pereira, bancário


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