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Cultura
Último artesão a fazer tesouras de tosquia
Na pancada está a arte

FOTO «Não sei que lhe diga», afirma Mateus Miragaia, mas quando começa a falar nunca mais emperra. O último artesão a fazer tesouras de tosquia fala como quem conhece a arte como a palma das mãos. Dispensadas que estão as perguntas, que ele responde sem que elas sejam necessárias, é deixá-lo contar a sua vida e desvendar o seu dom. «Então foi assim», começa, «o Jarmelo sempre foi famoso pela sua ferramenta. Isto era terra de ferreiros natos. Levantavam-se às três da manhã, numa altura em que ainda não havia candeias ou outra luz qualquer, trabalhavam apenas com a luz do fogo, sempre forte e febril. Faziam enxadas e machados, essencialmente, que os agricultores eram os principais clientes. Das três até às nove da manhã dedicavam-se a calçar, que é como quem diz unir o ferro com o aço. Às nove horas iam almoçar, que já mereciam. Depois, o mestre ficava na oficina a forjar a ferramenta enquanto que o empregado ia para o moinho amolar até à noite. Na altura o jantar era servido por volta da uma hora, a merenda era à hora do regresso do moinho e a ceia à noitinha, antes de deitar. Eram outros tempos, agora já não é assim. Sabe qual é o meu horário de trabalho? É desde que me levanto até que me deito», e sorri bem disposto como parece característico da família. Mateus Miragaia não quis ser agricultor como o pai, antes quis seguir as pegadas de um cunhado, que era ferreiro. Começou cedo a frequentar a oficina do pai do dito cunhado e não o assustou o ritmo de trabalho dos ferreiros, abundantes na altura na região. Tinha 15 anos quando começou a trabalhar o ferro, já lá vão 43 anos. Viu extinguir-se a profissão e hoje é o único ferreiro da aldeia, Donfins do Jarmelo, «da freguesia de S. Pedro». É o único artesão que ainda faz tesouras de tosquia, mas também se lhe adivinha fraco o futuro uma vez que há cada vez menos pastores, cada vez menos rebanhos, cada vez menos quem saiba tosquiar. Resta-lhe o artesanato, que há sempre quem queira guardar recordações de tempos que já não voltam.

O dom de fazer tesouras, explica, está em saber usar o ouvido. É um som muito subtil que indica se a tesoura está bem acabada, um corte fatal num bocado de lã dá a confirmação final. Mas não se fica por aqui a arte deste ferreiro. É preciso saber qual a altura certa para tirar a ferramenta do fogo e arrefecê-la rapidamente, «porque quanto mais calor entrar no frio mais duro se torna o material». Mas há mais. Para trabalhar o ferro também é preciso ter músculos de ferro. Mateus Miragaia assegura que já houve alturas em que chegou a dar entre 35 a 40 mil pancadas por dia no ferro, sendo que cada faca que faz tem que levar cerca de 400 pancadas. É com a pancada que se atinge a perfeição, garante.

Nesta altura Mateus Miragaia não faz tesouras, a sua época, de Janeiro a Maio, já terminou. Agora faz facas, pedoas, roçadoras, entre outras engenhocas que lhe passeiam pela mente. Porque ele é também um inventor. A sua casa está recheada com alguns dos objectos que imaginou, para alegria dos cinco filhos, como um escorrega, um cavalo mecânico, baloiços. Criações que fazem as delícias da população e que levam à pacata aldeia verdadeiras comitivas de curiosos, crianças e adultos, que querem saber mais sobre este homem dos sete ofícios, fazedor de tradição e lendas de encantar.

Maria João Silva

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