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Magusto por obrigação
Aldeia Viçosa e Cavadoude são as únicas herdeiras da
"deixa" da "velha". Mas só uma destas duas localidades
foi fiel à herança. Reza a história que o "Magusto da
Velha", tradição de séculos em Aldeia Viçosa, deriva de
uma obrigação contraída pela Igreja em virtude de uma
doação feita por uma "velha", alegadamente, abastada.
Enquanto que na antiga Vila do Porco a «dádiva» ainda
hoje dá vinho e castanhas aos habitantes da terra, os de
Cavadoude «não a quizeram e venderam-na».
Hoje, em Aldeia Viçosa reza-se por Alma da "velha". É
uma obrigação e, acima de tudo, uma tradição com vários
séculos, inerente a um testamento deixado à Igreja, e que
mais tarde passaria para a posse do Estado.
Conta a história, e quem a escreveu, que a Igreja "tem
obrigafsão de dar em a pª. octava de Natal (dia 1 de Janeiro)
sinco meos de castanha e sinco Alqueires de vº. (vinho) pella
Alma de hua velha q.e deixou noventa e feis (seis) Alqueires de
senteo a esta Ig.ra impostos na quinta do Lagar de Azeite p.a q.e
com esta castanha e vº. se fizefse no mesmo dia hum magusto e
todos dep.s dele comefsem a rezar na Ig.ra hum padrenofso
pella sua Alma. O Povo tem dado esta esmolla a Confraria do
Santifsimo Sacramen.to e nos domingos tezeiros a mifsa deste.
se reza hum Padrenofso pello Povo pella Alma desta velha q.e
pede o Capellão quando diz mifsa".
A tradição remonta, pelo menos, ao século XVII, ao ano de
1698, e deriva de uma obrigação contraída pela Igreja da antiga
Vila do Porco, hoje Aldeia Viçosa. Em virtude de uma doação
feita por uma "velha", pensa-se que abastada, talvez até «uma
das antigas condessas a quem foi confiado o território
portucalense», todos os anos, volvido o Natal, a Igreja tinha por
obrigação a esta "velha" rezar-lhe um "Padre Nosso" e que o
povo, um dia no ano, pudesse beber vinho e comer castanhas. A
sua vontade perpetuou ao longo dos séculos como reza no
"Livro de Usos e Costumes da Igreja do Lugar de Porco - Anno
de 1698". Para que não restassem dúvidas o prior de então,
padre António Soares Albergaria Meireles, perpetuava assim
todas as obrigações daquela Igreja. O "Magusto da Velha" «foi
uma espécie de deixa que foi feita à Igreja que, por intermédio
da Confraria do Santíssimo Sacramento, satisfazia a obrigação»,
interpreta o padre Geada, pároco, há seis anos, em Aldeia
Viçosa.
Da "velha" nada de muito concreto se sabe; nem a história, nem
o sábio povo sabem dizer, ao certo, quem era esta "velha".
Ninguém lhe conhece o nome. Adriano Vasco Rodrigues,
historiador e descendente da terra, só tem uma certeza: «Foi uma
dádiva generosa que pretendeu minorar as fomes, que foram
uma constante na Idade Média, e reunir as pessoas num gesto de
solidariedade e de união». Não tem dúvidas disto e admite que a
história do tradicional "Magusto da Velha" possa estar
relacionada com o lugar de Souto da Velha, em
Trás-os-Montes, onde também existiu um souto comunitário. De
resto, as investigação históricas «perdem-se no tempo» e, delas,
«não ficou documentação». Resta uma tradição que «tem uma
força muito grande», diz o historiador. Força essa que justifica
com o facto de Aldeia Viçosa ter sido uma vila. «Nos séculos
XII e XIII tinha um estatuto de foral outorgado por um bispo da
igreja, o que demonstra que a Vila do Porco tinha uma grande
importância resultante da sua posição geográfica», explica.
Por detrás dessa importância deverá estar a tal "velha" que
deixou para a eternidade a sua vontade, confiando-a à Igreja.
Uma "deixa" e uma "obrigação" que nunca deixou de ser
cumprida, nem mesmo quando o património da Igreja passou
para a posse do Estado. «A partir do Liberalismo, sobretudo a
partir da república, em consequência da Lei da Separação da
Igreja do Estado, a responsabilidade que era assumida pela
Igreja passa a ser assumida pelo Estado». Com a posse dos
bens da Igreja pelo Estado «apenas houve uma mudança de
nomenclatura e de posição política», sem interferir com a
continuidade deste «acontecimento tradicional dos mais antigos
da nossa Beira», sublinha o historiador.
Como de facto. O "magusto da Velha", em Aldeia Viçosa, é uma
tradição que já transpôs vários séculos e cuja "obrigação"
nenhuma geração deixou de cumprir. Embora com pequenas
alterações, o rito continua vivo no Vale do Mondego. Com uma
ligeira diferença: A "esmola" que a "velha" ordenou que fosse
dada na «primeira oitava de Natal» (dia 1 de Janeiro) é, há mais
de um século, dada no dia 26 de Dezembro. A mudança de data
«não é significativa», refere Adriano Vasco Rodrigues,
justificando o facto com «o começo do ano civil». O historiador
lembra que «na Idade Média, muitas das celebrações coincidiam
com o início do ano civil que não teve sempre a mesma data».
Por isso, esta alteração, pode muito bem ter a ver com as
«muitas flutuações que houve até à reforma do celendário
gregoriano, no século XVI». Até «a própria data do nascimento
de Jesus não está bem clara», sublinha.
A tradição já não é o que era
É certo que noutros tempos o "Magusto da Velha" se fazia no
primeiro dia de Janeiro. No entanto, parece ser um pormenor de
pouca relevância para o povo de Aldeia Viçosa que nunca
deixou por mãos alheias a tradição.
Hoje, como manda a regra, cumpre-se a obrigação, com missa e
tudo. Pois, porque «não há celebração todos os anos», assegura
o padre Geada. Há seis anos naquela freguesia, o pároco «só
celebrou duas vezes» a missa por alma da "velha". Vai ser «uma
missa normal para os devotos», embora «quem come das
castanhas que uma pessoa deixou tenha a obrigação moral de
rezar por ela», diz o padre Geada com ar chalaceador.
«Dobra o sino». Na aldeia, já toda a gente sabe que o "Magusto
da Velha" está prestes a começar. Na praça, bem no centro da
terra, o fumo dispara para o céu. Ainda é o madeiro do Natal a
arder. Se o tempo não pregar nenhuma partida, depois do
almoço o povo concentra-se junto à torre da igreja à espera das
castanhas e dos forasteiros atraídos pela tradição. Este ano,
como nos últimos, já não será o "Ti Passarinho" a lançar as
castanhas. Agora está «empregado como nós aqui», diz Maria
de Jesus, uma das idosas que o TB encontrou no Centro de Dia
de Aldeia Viçosa. É que o "Ti Passarinho" «era o único que lá
subia»; à torre da igreja da Aldeia para lançar as castanhas.
Depois de ter bebido uns copos, o septuagenário, subia ao
pináculo da torre, até ao galo do cata-vento, e era daí que
lançava alguns foguetes e umas mãos-cheias de castanhas. Ao
"Ti Passarinho" coube, durante muitos anos, a tarefa de iniciar a
festa. A idade não o poupou e hoje, assistirá ao "Magusto da
Velha" a partir da sua cama, para onde a idade o mandou há já
algum tempo. Em seu lugar, «um ou dois homens» fazem as
honras da casa, atirando lá de cima 150 quilos de castanhas que
os 100 litros de vinho, «tinto do bom» (graceja o presidente da
Junta, Baltazar Lopes), esperam cá em baixo. No terreiro,
homens e mulheres vão "molhando o bico". «É diferente», dizem
as Marias, de Jesus e dos Santos. Do alto dos seus mais de
setenta anos, olham para o passado e, soltando umas poucas de
risadas envergonhadas, contam que «agora já bebem à
descarada, só o que se vê é mulheres e tudo com os pucarinhos
na mão». Para as duas mulheres, a tradição já não é o que era.
Sim, porque no seu tempo, «bebiamos às escondidas, com o
pucaro debaixo do xaile». Lembram que «o iam encher,
levavam-no para casa e voltavamos a buscar outro». Mais uma
gargalhada a demonstrar «as saudades desse tempo». Hoje, o
"Magusto da Velha" continua «bonito», mas naquele tempo «a
mocidade era mais adevertida». Agora «o que querem é andar
nos cafés», antes «era ao ar livre que se adevertia a gente»,
remata Maria de Jesus. Da "velha" pouco ou nada sabem contar.
«Dizem que era uma velha muito rica que deixou esta "deixa"» e
que os seus herdeiros foram a Aldeia Viçosa e Cavadoude,
«mas esses venderam tudo; não quizeram ficar com a deixa, não
sei lá porquê!», exclama uma das septuagenárias.
Ainda divertida com as recordações do "Magusto da Velha",
Maria dos Santos comenta «as risadas» que soltavam sobre as
«cavaladas». As mesmas que ainda hoje se fazem, com os
homens a saltarem para o dorso dos que se baixam para apanhar
as castanhas. «É cada lapada que só se ouvem os homens ai, ai,
ai...», conta, divertida, Maria dos Santos.
Paula Pinto
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