
Afectos e Rancores
Maria José Abrunhosa1. Espantoso o primeiro
comunicado da candidatura do PS à Câmara da Guarda.
Espantoso pela clareza: ficamos a saber que não têm
nenhuma ideia para a governação do concelho. Espantoso
pelo slogan: o objectivo é rumar ao século XXI, o que
não é um desígnio mas uma fatalidade.
Eis alcançado do grau
zero da política. Maria do Carmo Borges só sabe que
quer ser presidente da câmara, não sabe para quê. Arde
literalmente de amor por todos nós, residentes destas
"lindas terras", que também ama
apaixonadamente. O comunicado é aliás uma peça de
literatice pacóvia a roçar o incompreensível: "A
nossa herança, o nosso património, dizem os guardenses,
de um saber, de um sentir e de um fazer que nos
orgulha." (?!!)
A política, diziam os
gregos, é a arte de bem governar os povos. As eleições
locais fazem-se para escolher um governo local. Aquilo
que o eleitor precisa de saber é que desígnios
apresentam os candidatos a governantes, expressos em
propostas e em ideias concretas de governação. Porque
se a existência de um objectivo não é condição
suficiente para que ele se concretize, é pelo menos uma
condição necessária: onde não há objectivos não há
verdadeiro programa de governação, há a busca do poder
pelo poder.
O que quer o PS? Ganhar a
câmara, isso é evidente. Para quê? Para manter o
poder. Para quê então, se tudo o que a candidata diz é
que está "temperada de fraternidade e
afectos"?
2. Quando o
discurso político é nulo não há verdadeira
controvérsia democrática. Neste aspecto a candidata
Maria do Carmo Borges é uma completa desilusão. Em
tempos julguei que ela significasse uma fasquia alta, a
que o PSD acrescentara valor. Enganei-me e lamento-o:
Carlos Andrade é o primeiro prejudicado pela falta de
programa concreto da sua adversária, pela falta de
vontade de debater, pelo constante refúgio em indirectas
ao adversário, pela incapacidade aflitiva de se afirmar
pela positiva. Nada pode ser discutido, confrontado,
corrigido. A candidata está numa redoma de
"fraternidade e afecto", e dali não arreda
pé.
Afectos para as pessoas
abstractas e rancores para as pessoas concretas. Uns são
o contraponto dos outros.
Dou de barato que Maria
do Carmo Borges não concorda com o registo utilizado
pelo seu técnico Luis Soares no último correio dos
leitores, em que me ataca de forma que roça a
má-criação. Mas não pode esconder que é a face da
mesma moeda. Onde não há ideias, não há poder de
argumentação: restam os insultos...
Não posso responder
àquela carta. Porque se o homem embirra comigo,
paciência. Para lhe demonstrar que não sabe do que fala
teria de me justificar, de falar de mim. Mas que
interessaria isso aos leitores? Que interessaria isso às
próximas eleições autárquicas?
Ainda que eu fosse a mais
desclassificada das pessoas, um argumento combate-se com
outro argumento, não com ataques pessoais. Porque
haverá sempre alguém, pensando pela sua própria
cabeça, que diga assim: "não gosto dela, mas nisto
tem razão"...(e isso é que incomoda, não será?)
A democracia é o regime
da controvérsia pacífica, da discussão racional. As
pessoas dividem-se por diferentes ideias, por diferentes
programas, por diferentes convicções. Sem ideias as
opções personalizam-se, empobrecendo a vida social e
tornando-a irrespirável: "quem não é por nós é
contra nós". Ódios, amores, hostilidades,
fidelidades - eis os ingredientes do tribalismo, do
totalitarismo, da tirania, da cultura anti-democrática.
Não contem comigo para os atiçar.
3. Mudando de
agulha. No passado sábado, dia 4 de Outubro, fui visitar
o Centro Histórico de Guimarães. Comigo foram Carlos
Andrade, Carlos Baía, Margarida Tavares e alguns
familiares nossos. Fomos guiados pela responsável do
Centro Histórico, arquitecta Alexandra Gesta, que
amavelmente nos dispensou o dia. Tivemos um almoço de
trabalho, passeamos e aprendemos.
As esplanadas estavam
cheias de turistas e as janelas cheias de moradores. O
chão irrepreensivelmente limpo. Os pavimentos
excelentemente cuidados. As casas primorosamente
reabilitadas. As pessoas terrivelmente vivas. Os carros
ausentes. E não havia caixotes do lixo (sr. vereador
Poço, ainda vai a tempo de perguntar para lá qual é o
segredo...).
A verdade é que a Guarda
podia ser assim. Se na altura em que teve técnicos
devotados à causa (eu, a arqª Cristina Rosa, o arqº
Aristides Lourenço, a arqª Salete Marques, os
estudantes alemães, os consultores do MEREC, etc, etc) a
câmara tivesse tido um pingo que fosse de vontade. Que
nunca teve. Preferiu pôr os seus técnicos no papel
odioso de reprimir sem contrapartidas. Era mais simples,
mais barato, e alijava responsabilidades.
A primeira vez que fui a
Guimarães foi através dum Seminário para o qual a
câmara da Guarda tinha sido convidada. O único
político que se mostrou interessado em ir foi o vereador
da oposição engº Fonseca de Carvalho. Como ele quis
ir, mandaram-me também - devo-lhe isso. Quando voltamos,
ele fez na sessão de câmara um óptimo resumo da visita
- ninguém ligou.
Neste entretanto a
câmara, soube agora, enterrou 200 mil contos numa ETAR
que não funciona nem nunca funcionou.
Decididamente os afectos
não resolvem o desinteresse e a incapacidade de gestão.
Q.E.D.

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