23 Out 97 Terras da Beira
Semanário

















Afectos e Rancores
Maria José Abrunhosa

1. Espantoso o primeiro comunicado da candidatura do PS à Câmara da Guarda. Espantoso pela clareza: ficamos a saber que não têm nenhuma ideia para a governação do concelho. Espantoso pelo slogan: o objectivo é rumar ao século XXI, o que não é um desígnio mas uma fatalidade.

Eis alcançado do grau zero da política. Maria do Carmo Borges só sabe que quer ser presidente da câmara, não sabe para quê. Arde literalmente de amor por todos nós, residentes destas "lindas terras", que também ama apaixonadamente. O comunicado é aliás uma peça de literatice pacóvia a roçar o incompreensível: "A nossa herança, o nosso património, dizem os guardenses, de um saber, de um sentir e de um fazer que nos orgulha." (?!!)

A política, diziam os gregos, é a arte de bem governar os povos. As eleições locais fazem-se para escolher um governo local. Aquilo que o eleitor precisa de saber é que desígnios apresentam os candidatos a governantes, expressos em propostas e em ideias concretas de governação. Porque se a existência de um objectivo não é condição suficiente para que ele se concretize, é pelo menos uma condição necessária: onde não há objectivos não há verdadeiro programa de governação, há a busca do poder pelo poder.

O que quer o PS? Ganhar a câmara, isso é evidente. Para quê? Para manter o poder. Para quê então, se tudo o que a candidata diz é que está "temperada de fraternidade e afectos"?

2. Quando o discurso político é nulo não há verdadeira controvérsia democrática. Neste aspecto a candidata Maria do Carmo Borges é uma completa desilusão. Em tempos julguei que ela significasse uma fasquia alta, a que o PSD acrescentara valor. Enganei-me e lamento-o: Carlos Andrade é o primeiro prejudicado pela falta de programa concreto da sua adversária, pela falta de vontade de debater, pelo constante refúgio em indirectas ao adversário, pela incapacidade aflitiva de se afirmar pela positiva. Nada pode ser discutido, confrontado, corrigido. A candidata está numa redoma de "fraternidade e afecto", e dali não arreda pé.

Afectos para as pessoas abstractas e rancores para as pessoas concretas. Uns são o contraponto dos outros.

Dou de barato que Maria do Carmo Borges não concorda com o registo utilizado pelo seu técnico Luis Soares no último correio dos leitores, em que me ataca de forma que roça a má-criação. Mas não pode esconder que é a face da mesma moeda. Onde não há ideias, não há poder de argumentação: restam os insultos...

Não posso responder àquela carta. Porque se o homem embirra comigo, paciência. Para lhe demonstrar que não sabe do que fala teria de me justificar, de falar de mim. Mas que interessaria isso aos leitores? Que interessaria isso às próximas eleições autárquicas?

Ainda que eu fosse a mais desclassificada das pessoas, um argumento combate-se com outro argumento, não com ataques pessoais. Porque haverá sempre alguém, pensando pela sua própria cabeça, que diga assim: "não gosto dela, mas nisto tem razão"...(e isso é que incomoda, não será?)

A democracia é o regime da controvérsia pacífica, da discussão racional. As pessoas dividem-se por diferentes ideias, por diferentes programas, por diferentes convicções. Sem ideias as opções personalizam-se, empobrecendo a vida social e tornando-a irrespirável: "quem não é por nós é contra nós". Ódios, amores, hostilidades, fidelidades - eis os ingredientes do tribalismo, do totalitarismo, da tirania, da cultura anti-democrática. Não contem comigo para os atiçar.

3. Mudando de agulha. No passado sábado, dia 4 de Outubro, fui visitar o Centro Histórico de Guimarães. Comigo foram Carlos Andrade, Carlos Baía, Margarida Tavares e alguns familiares nossos. Fomos guiados pela responsável do Centro Histórico, arquitecta Alexandra Gesta, que amavelmente nos dispensou o dia. Tivemos um almoço de trabalho, passeamos e aprendemos.

As esplanadas estavam cheias de turistas e as janelas cheias de moradores. O chão irrepreensivelmente limpo. Os pavimentos excelentemente cuidados. As casas primorosamente reabilitadas. As pessoas terrivelmente vivas. Os carros ausentes. E não havia caixotes do lixo (sr. vereador Poço, ainda vai a tempo de perguntar para lá qual é o segredo...).

A verdade é que a Guarda podia ser assim. Se na altura em que teve técnicos devotados à causa (eu, a arqª Cristina Rosa, o arqº Aristides Lourenço, a arqª Salete Marques, os estudantes alemães, os consultores do MEREC, etc, etc) a câmara tivesse tido um pingo que fosse de vontade. Que nunca teve. Preferiu pôr os seus técnicos no papel odioso de reprimir sem contrapartidas. Era mais simples, mais barato, e alijava responsabilidades.

A primeira vez que fui a Guimarães foi através dum Seminário para o qual a câmara da Guarda tinha sido convidada. O único político que se mostrou interessado em ir foi o vereador da oposição engº Fonseca de Carvalho. Como ele quis ir, mandaram-me também - devo-lhe isso. Quando voltamos, ele fez na sessão de câmara um óptimo resumo da visita - ninguém ligou.

Neste entretanto a câmara, soube agora, enterrou 200 mil contos numa ETAR que não funciona nem nunca funcionou.

Decididamente os afectos não resolvem o desinteresse e a incapacidade de gestão. Q.E.D.


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