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(2) Timor Lorosae e a Língua Portuguesa: os Perigos
Mário Gomes

Três grandes perigos espreitam a cooperação com Timor, o primeiro é o etnocentrismo. O regresso a Timor Lorosae, não é um regresso, é uma primeira viagem que vai estabelecer relações entre dois povos em igualdade de circunstâncias, as ilusões neo-coloniais têm que ser varridas do horizonte. Vamos mais para aprender do que para ensinar, para «estabelecer o diálogo baseado no reconhecimento e no respeito mútuos. Esta frase parece banal, mas todos os dias estamos a infringir os princípios que recitamos. Os portugueses precisam de admitir seriamente que desconhecem quase tudo de Timor-Leste e do seu povo, pela que a sua atitude de base terá de ser o gosto pela aprendizagem.» [Público, 14.2.2000]

O segundo perigo é o do tradicional voluntarismo amadorista, muito coração pouca ciência, lembro a propósito as imagens que pudemos ver na TV aquando da chegada do primeiro auxílio humanitário a Darwin, estão recordados?, era para ser uma Missão de Médicos [que acabaram por nunca chegar a Díli] mas tornou-se numa Missão de Bombeiros (perdoem-me os Bombeiros), as caixas estavam tão mal acondicionadas que algum material se perdeu, e como foi mostrado, seguia junto uma vassoura... utilizada. Escreveu-se: «vieram marquesas de cinco mil contos, monitores cardíacos que se calhar nunca vão ser necessários aqui, mas esqueceram-se das agulhas, das seringas e do soro, entre outras coisas essenciais». [Público, 5.10.1999] Isto está a acontecer todos os dias, e é grave que aconteça, as últimas notícias dão conta do desaparecimento de 4,5 milhões de dólares, dizem-nos (e eu acredito, sinceramente), devido aos cruzamentos de informação entre o Governo Português e as Organizações Não-Governamentais, entretanto, os Médicos do Mundo portugueses, queixam-se muito provavelmente com razão: «Queríamos que eles [missão portuguesa] vissem o nosso trabalho e como aplicámos os 21 mil contos que nos foram confiados pelos portugueses, mas eles parecem não ter interesse» [Público, 25.2.2000]. Seria bom que isto tivesse um fim e procedêssemos disciplinadamente e com visão estratégica - planeando.

Mas o terceiro perigo, para mim, é o mais terrível porque me diz muito directamente respeito, e é ele: transportar para Timor os erros que aqui cometemos no nosso Ensino. É forçoso fazer aqui uma breve introdução.

Salazar e os seus cinquenta anos de poder instalaram uma sociedade mansa. Mas não era a mansidão da paz ou de uma persistente paciência dos justos, era a mansidão abúlica da mediocridade e do medo. A Universidade e o Ensino em Portugal não foram excepção, pelo contrário, foram um dos baluartes do Fascismo português, é bom não esquecer que o caudilho era, ele próprio, um universitário. Criou-se assim, a douta ignorância dos académicos (que subsiste): sabiam (... quando sabiam) imenso das suas disciplinas, mas só, tudo o que lhes era vizinho, ou mesmo próximo, desconheciam. Sobre a vida vivida fora do gueto universitário era a total ignorância e distanciamento. O contrário do [que se diz] que é hoje. Na realidade, o discurso universitário era a retórica de ocasião: foguetório palavroso sem nada lá dentro.

Instalou-se o professor-funcionário público apenas interessado na progressão da carreira e na dita investigação, desprezando a leccionação (e os alunos). Ainda hoje é assim, lia-se há poucos dias num diário: «universidades e politécnicos 'julgam estar acima da lei'», leia-se sociedade. Nestas instituições vive-se ainda o terror do chefe, que o mesmo é dizer: «o medo de contrariar o poder dos catedráticos» [Público, 2.3.2000]. Isto já vem de longe, nas Universidades, a par da Instituição Militar e da Igreja Católica, nunca houve uma reforma séria desde a sua fundação na Idade Média...

É este o meu medo: que vamos acostar a Timor-Lorosae com os métodos da velha senhora, passe a expressão. De Timor chegam continuamente os avisos, de Fatumaca, um colégio que "sustenta" 18 mil timorenses: «Até agora recebeu lápis e cadernos do Exército australiano; há uma semana, os bombeiros portugueses entregaram duas caixas de livros ('a maior parte novos e muito úteis para o ensino básico, mas em vez de livros técnicos vieram romances e outras coisas que não servem para nada')» [Público, 26.2.2000]. É típico!...

Seria bom que não se repetissem todos estes erros, para que não voltássemos a ler: um sacerdote-professor, em Díli, depois da crise, em Outubro de 99, entregou uns livros à missão portuguesa [os mais antigos, anteriores à ocupação da Indonésia, para ensinar a ler], para servirem de modelo ou para serem fotocopiados, na altura não disseram nada, foram devolvidos agora, em Fevereiro, «dizendo-me que ficaria muito caro fazer fotocópias. Assim, sem mais nada. Fiquei tão triste, tão desiludido. Não são estas coisas que esperamos de Portugal.» [Público, 28.2.2000]. Se cito este deprimente desabafo, não é para desanimar ninguém, espero bem que tudo isto mude, para bem de todos... Quem tem ouvidos ouça.

Para a semana apresentarei a minha própria proposta de trabalho.


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