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Editorial

Perdão Polémico
Virgílio Mendes Ardérius

Virgílio Mendes Ardérius Apesar de alguma oposição, especialmente dentro do Vaticano, o Papa João Paulo II realizou, no passado Domingo, um dos actos mais significativos do seu pontificado.

Numa cerimónia sem precedentes realizada na Basílica de São Pedro, pediu, publica e oficialmente, perdão pelos pecados passados, da Igreja Católica.

Ao longo de vinte e dois anos de pontificado, João Paulo II, em nome da Igreja, tem vindo a fazer um vasto e exaustivo exame de consciência, deplorando, dezenas e dezenas de vezes, certos comportamentos dos cristãos católicos através dos tempos.

O gesto do Papa foi integrado no "Dia do Perdão", no Jubileu do ano 2000 e na sequência do documento "Memória e Reconciliação: as culpas do passado", elaborado por uma Comissão Teológica Internacional.

Em várias intervenções anteriores tinha falado dos "prejuízos infligidos aos não-católicos", aos "enormes sofrimentos dos índios da América", à prática da escravatura e agora fala dos pecados contra a verdade, a unidade dos cristãos, os judeus, o respeito pelo amor, paz e culturas, a dignidade das mulheres e das minorias e contra os direitos humanos.

O Papa, como pastor e chefe de toda a Igreja Católica, assume o peso do pecado dos seus filhos, que ao longo da história, em vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores do Evangelho, pela sua forma de agir e pensar se tornaram motivo de escândalo e antitestemunho.

O Papa pede perdão e também perdoa as atitudes de marginalização, as injustiças e perseguições contra os filhos da Igreja, ao longo da história.

Esta atitude do Papa, poderá ser olhada como um sinal de vitalidade e autenticidade e servir de estímulo para que outras sociedades públicas ou privadas e até Chefes de Estado ou Governo, possam auto-criticar-se e pedir perdão para tantas injustiças praticadas.

Se é certo que não podemos julgar os protagonistas dos acontecimentos passados com os conhecimentos e consciência actuais, teremos de reconhecer quanto é positivo o trabalho crítico que a nossa sociedade vai desenvolvendo.

Certamente, por isso, será possível, hoje, levar a tribunal os generais indonésios responsáveis pelos massacres dos timorenses, o general Pinochet pelos crimes no Chile, os criminosos de guerra da Sérvia, do Kosovo ou da Chechénia.

Ninguém poderá considerar-se isento de culpa. Como lembrava o Papa, Domingo passado, "os cristãos foram culpados de atitudes de rejeição e exclusão, consentindo em actos de discriminação na base das diferenças étnicas e raciais. (...) Os cristãos não reconheceram Cristo nos pobres e nos perseguidos e muitas vezes cometeram actos de injustiça privilegiando os ricos e poderosos".

É caso para nos questionarmos. Como actua cada um de nós, na sociedade em que vivemos e quais os valores que defendemos?

A purificação da memória deverá representar um impulso para renovar a fé e entrar no novo milénio com um coração novo, com mais capacidade de amar.


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