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Centenas de pessoas têm fé no «milagreiro» do Soito
O enigma do Padre Miguel
Aos 88 anos, o Padre Miguel continua a celebrar
missas e a atender as centenas de pessoas que todos os dias procuram os seus conselhos e
as suas curas. Não se considera um padre «milagreiro», mas admite possuir um qualquer
«dom especial» que o acompanha desde que nasceu.
A manhã de Sexta-feira acordava cinzenta na freguesia do
Soito, Sabugal. Nas ruas poucos circulavam ainda. Às 8.30h, na pequena capela da casa do
padre José Miguel, respirava-se fé. Apenas três mulheres aguardam pelo começo da
missa. Eis que surge então o Padre Miguel, a arrastar as pernas, que os seus 88 anos já
não perdoam. Sobe ao altar, agarrado por um homem que não se afasta dele durante toda a
missa. Faz a celebração quase toda sentado numa cadeira com braços e das palavras que
pronuncia pouco se torna perceptível. Assistência, apesar de escassa, ajuda à missa de
uma forma incansável. Mesmo num estado debilitado, o padre não desiste e promete dizer
missa até que a morte o leve.
É assim o começo de mais um dia, entre tantos outros, da
vida de José Miguel, que muitos consideram o padre "milagreiro". Nesta
Sexta-feira, ao contrário da maioria dos dias, José Miguel não vai atender as centenas
de pessoas que todos os dias lhe batem à porta. Hoje é dia de ir a Figueira de Castelo
Rodrigo fazer fisioterapia às pernas. É de resto um dia que José Miguel aprecia, porque
lhe permite passear, que «é uma coisa que sempre gostou de fazer», relata-nos o casal
que há mais de 11 anos cuida do padre.
Também continua a gostar de ler e discutir política, mas
parece já demasiado cansado para nos falar desse assunto.
Acedeu conversar com equipa de reportagem do TB, mas
depois de responder à primeira pergunta limita-se a dizer «vá, podem ir», uma frase
que parece dizer à maioria das pessoas que o visitam. Insistimos na conversa. Das poucas
palavras que proferiu, falou da sua meninice no Soito, terra que o viu nascer. Desses
tempos recorda os dias em que ajudava os pais. Vem-lhe também à memória o seu falecido
irmão Manuel, que «tinha o dom de curar os animais», revela-nos. Recorda ainda que
depois da escola primária, que frequentou no Soito, foi estudar para o Seminário do
Fundão e daí para o Seminário da Guarda. Foi pároco em Meimão, no concelho de
Penamacor, passou ainda pelas paróquias de Malcata, Freixo da Serra e Folgosinho. Nessa
freguesia serrana «pagavam em grão e queijos», conta o padre Miguel, insistindo várias
vezes neste pormenor ao longo da conversa, como se fosse uma marca que lhe ficou para o
resto dos seus dias. Garante que não faz milagres, mas admite ter «um dom
inexplicável», que o acompanha desde sempre. E mais não disse.
Onde tudo começou
José Miguel Pereira já de pequeno era tratado por
«santinho» pelos colegas de escola. Mas a verdadeira revelação dos «poderes» deste
padre terá acontecido em Meimão, onde exerceu por mais de 25 anos, que tudo começou.
Cunha Simões na sua obra «Os mistérios do Padre Miguel», conta que num diálogo que
estabeleceu com uma mulher de Meimão descobriu que terá sido uma jovem daquela freguesia
quem desvendou o «dom do Padre Miguel», quando em certa altura da sua vida procurou em
Aveiro «uma mulher daquelas que a gente chama de virtude». Terá sido então essa mulher
que terá dito à rapariga que a foi consultar que escusava de ter ido tão longe quando
tinha na sua terra um homem «que é maior que todos nós e que tem mais poderes que
qualquer um». A mulher com quem o escritor, que se dedica ao estudo da vida e da obra do
Padre Miguel, ter-lhe-à ainda referido que foi assim que se descobriu «o dom do Padre do
Meimão», uma vez que «só os bentos se podem descobrir uns aos outros».
Vivia-se a década de 70 quando o padre começou a ser
visitado por pessoas que vinham de todos os pontos do País e até do estrangeiro.
Procuravam-no em busca da cura para doenças graves e problemas familiares. Outros havia
que o visitavam para obterem algumas palavras de conforto, ou que se deslocavam a Meimão
só por uma questão de curiosidade. Primeiro chegavam a Meimão pequenos grupos de
fiéis. Mas a fama do padre depressa se espalhou e passaram a ser às centenas os que
procuravam diariamente os conselhos do Padre Miguel.
A romaria a que a freguesia do Meimão já se tinha
acostumado mudou-se para o Soito, quando há 11 anos o Padre Miguel regressou às suas
origens. Hoje é àquela vila que os peregrinos se deslocam, vindo de todos os cantos do
mundo. «Chegam a vir da América e até da Rússia», conta o casal que trata do padre
Miguel.
Carla Pinheiro

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