11 Mai 00 Terras da Beira
Destaques
Editorial
Opinião
Guarda
Região
Política
Cultura
Sociedade
Desporto
Agenda

Pesquisa
Arquivo

Forum
Dossiers
FAQ

Contactos
Ficha Técnica
Assinar
Links
Email

Sociedade
Centenas de pessoas têm fé no «milagreiro» do Soito
O enigma do Padre Miguel

FOTO Aos 88 anos, o Padre Miguel continua a celebrar missas e a atender as centenas de pessoas que todos os dias procuram os seus conselhos e as suas curas. Não se considera um padre «milagreiro», mas admite possuir um qualquer «dom especial» que o acompanha desde que nasceu.

A manhã de Sexta-feira acordava cinzenta na freguesia do Soito, Sabugal. Nas ruas poucos circulavam ainda. Às 8.30h, na pequena capela da casa do padre José Miguel, respirava-se fé. Apenas três mulheres aguardam pelo começo da missa. Eis que surge então o Padre Miguel, a arrastar as pernas, que os seus 88 anos já não perdoam. Sobe ao altar, agarrado por um homem que não se afasta dele durante toda a missa. Faz a celebração quase toda sentado numa cadeira com braços e das palavras que pronuncia pouco se torna perceptível. Assistência, apesar de escassa, ajuda à missa de uma forma incansável. Mesmo num estado debilitado, o padre não desiste e promete dizer missa até que a morte o leve.

É assim o começo de mais um dia, entre tantos outros, da vida de José Miguel, que muitos consideram o padre "milagreiro". Nesta Sexta-feira, ao contrário da maioria dos dias, José Miguel não vai atender as centenas de pessoas que todos os dias lhe batem à porta. Hoje é dia de ir a Figueira de Castelo Rodrigo fazer fisioterapia às pernas. É de resto um dia que José Miguel aprecia, porque lhe permite passear, que «é uma coisa que sempre gostou de fazer», relata-nos o casal que há mais de 11 anos cuida do padre.

Também continua a gostar de ler e discutir política, mas parece já demasiado cansado para nos falar desse assunto.

Acedeu conversar com equipa de reportagem do TB, mas depois de responder à primeira pergunta limita-se a dizer «vá, podem ir», uma frase que parece dizer à maioria das pessoas que o visitam. Insistimos na conversa. Das poucas palavras que proferiu, falou da sua meninice no Soito, terra que o viu nascer. Desses tempos recorda os dias em que ajudava os pais. Vem-lhe também à memória o seu falecido irmão Manuel, que «tinha o dom de curar os animais», revela-nos. Recorda ainda que depois da escola primária, que frequentou no Soito, foi estudar para o Seminário do Fundão e daí para o Seminário da Guarda. Foi pároco em Meimão, no concelho de Penamacor, passou ainda pelas paróquias de Malcata, Freixo da Serra e Folgosinho. Nessa freguesia serrana «pagavam em grão e queijos», conta o padre Miguel, insistindo várias vezes neste pormenor ao longo da conversa, como se fosse uma marca que lhe ficou para o resto dos seus dias. Garante que não faz milagres, mas admite ter «um dom inexplicável», que o acompanha desde sempre. E mais não disse.

Onde tudo começou

José Miguel Pereira já de pequeno era tratado por «santinho» pelos colegas de escola. Mas a verdadeira revelação dos «poderes» deste padre terá acontecido em Meimão, onde exerceu por mais de 25 anos, que tudo começou. Cunha Simões na sua obra «Os mistérios do Padre Miguel», conta que num diálogo que estabeleceu com uma mulher de Meimão descobriu que terá sido uma jovem daquela freguesia quem desvendou o «dom do Padre Miguel», quando em certa altura da sua vida procurou em Aveiro «uma mulher daquelas que a gente chama de virtude». Terá sido então essa mulher que terá dito à rapariga que a foi consultar que escusava de ter ido tão longe quando tinha na sua terra um homem «que é maior que todos nós e que tem mais poderes que qualquer um». A mulher com quem o escritor, que se dedica ao estudo da vida e da obra do Padre Miguel, ter-lhe-à ainda referido que foi assim que se descobriu «o dom do Padre do Meimão», uma vez que «só os bentos se podem descobrir uns aos outros».

Vivia-se a década de 70 quando o padre começou a ser visitado por pessoas que vinham de todos os pontos do País e até do estrangeiro. Procuravam-no em busca da cura para doenças graves e problemas familiares. Outros havia que o visitavam para obterem algumas palavras de conforto, ou que se deslocavam a Meimão só por uma questão de curiosidade. Primeiro chegavam a Meimão pequenos grupos de fiéis. Mas a fama do padre depressa se espalhou e passaram a ser às centenas os que procuravam diariamente os conselhos do Padre Miguel.

A romaria a que a freguesia do Meimão já se tinha acostumado mudou-se para o Soito, quando há 11 anos o Padre Miguel regressou às suas origens. Hoje é àquela vila que os peregrinos se deslocam, vindo de todos os cantos do mundo. «Chegam a vir da América e até da Rússia», conta o casal que trata do padre Miguel.

Carla Pinheiro


Diga o que pensa sobre este Artigo:

Gostei

Concordo

Comentários

Autorizo a eventual publicação dos meus comentários no Semanário Terras da Beira.

Nome

Email

Nota: Se o desejar, pode fazer os seus comentários no Forum de Discussão do TB.