
Verde Verdugo
Morcegos
As noites enchem-se com os voos irrequietos dos pequenos
mamíferos voadores, os morcegos, vítimas de infundadas superstições. Estes seres
assombrosos são os únicos mamíferos do mundo que voam e necessitam ser acarinhados como
animais utilíssimos, que podem consumir numa só noite o seu próprio peso em insectos
(à razão de 500 presas por hora), contribuindo assim para o controlo de pragas
agrícolas e florestais e vectores de doenças. Estas capturas são efectuadas mediante um
sofisticado sistema de ecolocação. Observam-se em acção com maior facilidade junto aos
candeeiros cuja luminosidade atrai um sem-número de insectos voadores e seus predadores.
Entre os mamíferos os morcegos ordenam-se na segunda
ordem mais numerosa do mundo (só ultrapassados pelos roedores), com 977 espécies
identificadas, classificadas em 170 géneros e 19 famílias. Em Portugal continental
ocorrem 24 espécies (existindo ainda três espécies endémicas, uma nos Açores e duas
na Madeira), a maioria delas ameaçadas de desaparecimento. Aliás, os morcegos constituem
82% das espécies classificadas "em perigo" pelo Livro Vermelho dos Vertebrados
de Portugal. Recentemente foram recenseadas 18 espécies no PNSE.
O uso massivo de pesticidas - bioacumuláveis - na
agricultura constitui provavelmente a principal causa do declínio das populações de
morcegos, agravada por uma muito baixa taxa de reprodução, característica de espécies
que evoluíram sem sofrerem uma intensa predação. Ainda a destruição da floresta
autóctone, incluindo a vegetação ripícola e a destruição e/ou perturbação dos seus
abrigos auguram um futuro funesto para estes seres originais que já tinham conquistado os
ares no Eoceno Superior (há cerca de 50 milhões de anos).
O espeleoturismo e a espeleologia quando realizados sem
consciência ambiental representam uma nova ameaça, sobretudo se efectuados durante a
época de hibernação. No chão das cavernas existem raras e pouco estudadas comunidades
de invertebrados que vivem exclusivamente dos nutrientes providenciados pelos morcegos
(excrementos e um ou outro cadáver) e que facilmente podem ser aniquiladas sob os pés
dos intrusos.
São os melhores insecticidas - o equivalente nocturno às
andorinhas, aves que pesam cerca de 20 gramas, mas que consomem individualmente
aproximadamente 20 Kg/ano!
Localizam as suas presas mediante um sofisticado e
apuradíssimo sistema de ecolocação.
A sua perícia em voo é igualmente assombrosa, executando
difíceis manobras na captura de insectos: golpeiam-nos com as asas e imediatamente
recolhem a presa na bolsa formada pelo patágio interfemoral. Esta operação só é
possível porque os joelhos dos quirópteros conseguem dobrar-se para a frente.
Todos os morcegos ibéricos são insectívoros. Existem
ainda espécies hematófagas, nectívaras, frugívoras e piscícolas, mas todas estas
habitam as regiões tropicais e subtropicais.
Tanto os machos como as fêmeas possuem a capacidade -
única entre os mamíferos - de armazenar o esperma por cerca de 6 meses. Desta forma,
embora a fecundação se dê no Outono, o desenvolvimento dos embriões só se iniciará
na Primavera seguinte. A duração da gestação é variável, não só entre espécies
diferentes, como também entre indivíduos da mesma espécie, tendo como principal
condicionante a disponibilidade de alimento (no entanto, podemos estimar que varia entre
40 a 240 dias).
Paulo Barreiros

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