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Elvira Aires, a poetisa de Gonçalo
Por quem os versos falam

«Vivo em casa sozinha/ só entregue à solidão/ sou como uma ave sem ninho/ como um lar sem ter pão». Os versos trémulos que saem do velho caderno de Elvira Esteves Aires não são mais que o desabafo de quem, porque só, não é feliz. Dos seus 92 anos guarda folhas cheias de dolorosos sentimentos onde escreve a solidão. O fado não deu fortuna a esta mulher cansada, que engana com risos o desconsolo. Da sua voz saem largos travos de alegria que traem os versos que lê devagaradamente, que a vista já não ajuda.

Elvira Esteves Aires é poetisa desde que se conhece. Nasceu em Gonçalo a 15 de Outubro de 1908 e cedo se atirou à vida. Antes de andar na escola, já pastoreava com duas cabras que o pai lhe comprou. Fazia meias de algodão, diferentes, inventadas pela imaginação de uma sonhadora. Cada par diferente do próximo, para o pai, para a mãe e os oito irmãos. Aos sete anos entrou na escola. Enquanto as amigas brincavam, ela grudava-se à carteira e escrevia. Versos de criança, de sorriso, de vida. Na terceira classe terminou-lhe o futuro académico. «Fiz um exame muito bom, não errei nenhuma pergunta», e ri, sempre, de olhos fixos nas pessoas. Gosta de ver, perto, quem lhe fala.

Terminada a escola, foi cesteira, «noite e dia e nunca ficou nenhum cesto por vender», dançou no rancho folclórico, foi catequista, devota profunda de Nossa Senhora de Fátima, zeladora, responsável pelo alindamento do altar da igreja, encenadora e ensaísta de peças de teatro. E escrevia poemas, sempre. «À noite sentada ao lume/ é que meus versos são feitos/ não têm nenhum perfume/ parecem amores perfeitos».

Também trabalhou nas obras. «Ajudei o meu pai a construir a sede do clube, carregava a massa», lembra-se. Depois casou e ia com o marido «trabalhar para o chão». Ao fim do dia, mesmo cansada, não esmorecia na escritura de poesias. Nem quando teve os dois filhos, partos difíceis, ou quando viu morrerem os irmãos, o marido e o filho. Escreve sem parar sobre as suas «rolinhas que foram para o céu», e o filho «a quem dei a vida» e ele lhe retribuiu com a morte. Estava sentada no "seu" chafariz, onde tantos versos escreveu, quando tocaram os sinos pelo finado. «Orei pela pessoa», mal sabendo que rezava pelo filho. Também disto fez poesia, com lágrimas a amolecerem as folhas do caderno. Há dias esqueceu-se que o filho tinha morrido, foi um choque quando lhe deram a "novidade". Depois escreveu num papel que tem pendurado na sala para que não se esqueça. A solidão é o tema preferido de Elvira Aires, o seu legado é rico de tristeza. E a poetisa de Gonçalo continua a ler os seus versos, pausadamente, que não há pressa para o ermo.

Maria João Silva


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