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De rota batida
Vilar Formoso e a fronteira
Engalanada e repleta de povo, a estação do Caminho de Ferro de
Vilar Formoso recebeu em 3 de Agosto de 1882 a visita do rei D.Luís, da rainha D.Maria
Pia e do príncipe D.Carlos. Debaixo de sol abrasador a populaça assistiu com intensa
alegria à inauguração da linha da Beira Alta que, vinda da Pampilhosa, ali desembocava.
E não foi a despropósito a arrebatada comemoração, dado que as sonoras locomotivas a
vapor arrastaram o progresso e Vilar Formoso passou a ponto de passagem para os que se
deslocavam para lá da Fronteira, em demanda de Espanha ou do centro da Europa.
Pessoas e mercadorias passaram a cruzar a raia, num vai e
torna constante. O bulício invadiu a singela aldeia raiana, onde os negócios prosperaram
a olhos vistos. Surgiram pensões, casas de pasto, boticas, depósitos de recolha e
despacho de mercadorias. Instalou-se uma alfândega de primeira classe e uma secção
fiscal. Académicos, políticos, negociantes, religiosos, peregrinos, veraneantes,
passaram a aportar Vilar Formoso, onde cresceu uma floresta de «mangas de alpaca», pois
a fronteira significou burocracia no controlo de passageiros, revisão de bagagens e
cobrança de taxas. De repente o anónimo lugarejo acordou como categorizado entreposto
comercial e administrativo, vendo perdida a aquietação habitual.
Vá fitar Vilar Formoso na actualidade, agora afectado com
o fim da fronteira enquanto ponto de consequente controlo. Ainda o Sud Express e o Trama
(já uma simples automotora) ali rodam sobre as linhas de ferro, e os automóveis passam
céleres pelo asfalto da IP5, mas Vilar Formoso resta um povoado ferido pelas mudanças
ditadas do avanço da União Europeia, como terra de livre circulação. Sem fronteira
não há despachos, conferências, taxas e coimas a aplicar. Escoou-se a necessidade de
pernoitar e alimentar na aldeia. Vilar é agora uma terra de passagem rápida, fugaz,
quase sempre evasiva e efémera.
Mas uma adequada visita a Vilar Formoso requer tempo,
calma e muita bonança. Comece por se dirigir à alfândega e ao edifício que outrora
albergou a extinta PIDE/DGS, junto às desactivadas cabinas de controlo fronteiriço. Note
o ar austero das construções, onde muito foi pensada a funcionalidade, e atente no
espaço envolvente, onde os jardins, agora ignorados, foram tratados com especial esmero.
Verifique a fluidez do tráfego, a pressa de quem passa, que raramente pára e ronda pelo
interior do povoado. Dali arranque para a estação e deixe-se encantar com a imponência
do edifício e os painéis de azulejo embutidos nas paredes. Contemple as paisagens e
cenas campestres representadas. Saiba que esta é das mais deslumbrantes estações de
comboios do país, especial relíquia beirã que se tem sabido preservar.
Passe pelos lugares de culto: a ampla Igreja Matriz, a
graciosa Ermida de Nossa Senhora da Paz e a adorável capela de Santo Cristo. Na parte
antiga da vila - o povo - descubra as típicas casas alpendradas e imagine o que foi e o
que é Vilar Formoso. Antes povo sedimentado pelos cavaleiros templários na margem
esquerda da ribeira de Tourões, como reles núcleo paroquial, a terra estourou para fora
dos velhos limites, e eis que agora ocupa uma vasta extensão de terreno.
Junto à estrada que conduz ao Sabugal, tem exposto um dos
ex-libris de Vilar Formoso: a velha locomotiva a vapor BA101. Adquirida em 1931 pela CP
foi uma das melhores máquinas do género ao serviço dos caminhos de ferro. De tão
emblemática ali foi colocada em exposição, para significar a ligação estreita de
Vilar Formoso ao comboio. Mas note como a incúria tomou conta do monumento. A máquina
enferruja e cai aos pedaços, surripiaram-lhe os elementos de cobre e de bronze, é um
ferro velho arruinado e sem esplendor. Perante a constatação não se assumem
responsabilidades. Seguindo o nosso hábito, a culpa volta a morrer solteira, ninguém
respondendo aos sucessivos alertas lançados. Desleixo da CP urram uns. Delito da Câmara
de Almeida, reagem os visados. Delinquência dos temporais e do sol escaldante, atentam os
que constatam o óbvio. Não se mexe uma palha e aposta-se no velho adágio: O tempo tudo
cura, se a vida dura. Mas aqui o tempo cura matando e ferindo até à ruína total da
velha máquina. Resta ao povo de Vilar a indignação e o apelo a altas instâncias.
No fim da passeata pelos lugares dignos de apurada visita
cairá bem beber um trago, ou mesmo degustar um belo petisco. A Casa Latina, à saída
para a Guarda, espera por si com ar moderno e acolhedor. Se a fome o apoquenta peça a
cartilha e escolha um dos especiais pratos de lulas, que ali se preparam de toda a maneira
e feitio. Não se arrependerá se ao suculento prato juntar um vinho verde fresco.
Paulo Leitão Batista

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