
De rota batida
O vale de Aldeia da Ponte
Paulo Leitão Batista Quando a ti
Ronda, mulher vergalhuda de Alfaiates, passou ligeira, de carrego às costas e com o filho
de tenra idade ao dependurão, de uma moita saltou o Guarda Fiscal que estava de vigia:
- Alto lá, mulher, larga a carga!
A contrabandista estacou assarapantada.
- Ó senhor Guarda, só fui mercar pão.
- Deixa-te de lérias e passa-me a sacola.
- Bem me tramou! Segure-me ó menos o bebé enquanto
desamarro os atilhos do saco.
E o diligente guarda susteve ao colo o rosado catraio,
acedendo ao pedido.
Foi o que a ti Ronda quis ver, que logo se botou à
carreira pelo caminho, salvando a carga do rapinante, que o moço estava entregue à
autoridade.
- Ó estafermo, onde vais?... E o galfarro?
- Cuide-me dele, que eu me vou para acautelar o sustento -
disse enquanto fugia, deixando o guarda com a criança em choro convulsivo.
Passou-se esta acção no vale que se alonga de Aldeia da
Ponte a La Albergueria de Arganan, velha passagem de contrabandistas e ponto de espera de
guardas fiscais e carabineiros. Também local onde desembocava o caminho de Santiago que
desde tempos medievos os peregrinos cruzavam.
É um vale amplo e aberto, de férteis pastagens e algum
arvoredo. O caminho que o acompanha começa no Santo Cristo, segue em terrenos largos pelo
Canchal do Senhor, cruza a raia, passa rente ao lugar onde havia a caseta dos
«Crabineros», para depois meter por um talvegue, com cabeços a entalar a passagem.
O lameirão era terra de logradouro, a que todos tinham
acesso para pascigo do gado. Dali se rompia a buscar um pão ou um pingo de azeite à
outra banda da fronteira, que para o contrabando de maiores cuidados outros caminhos mais
escusos havia.
O velho caminho deu lugar a uma via com alcatrão, hoje
muito calcada por camiões que pretendem aproveitar a boa estrada que em terras de Espanha
segue para Ciudad Rodrigo.
Se vier a Aldeia da Ponte entre no interior do povo, nas
suas muitas e pequenas ruelas e delicie-se a olhar o casario antigo desta bela aldeia
raiana. Visite o velho colégio, onde foi pedagogo o Frei Bento Menni. Não deixe de
admirar o interior da Igreja Matriz. Depois arremeta para o Santo Cristo, e daí siga pelo
vale, a caminho de Espanha. Aproveite a amplidão de vistas e repare na beleza das tapadas
com carrasqueiras e giestas negrais. Ouça o silêncio dos lugares e imagine os panoramas
de antigamente quando os caminhos e os prados eram prenhes de gente em azáfama:
lavradores arando alqueives, pastores silvando às piaras, guardas patrulhando a raia,
contrabandistas alapardados para sob o lusco-fusco passarem as cargas. Idealize a revoada
que havia nos anos cinquenta quando o «Raul da Casaca Azul», major da Aviação natural
de Aldeia da Ponte, ali aterrava com a avioneta para gáudio da canalha e também da gente
graúda.
Em La Albergueria de Arganan vá a compras nos típicos
comércios. Não se esqueça das galhetas, do trigo de torno e duma garrafa de conhaque
Pedro Domec.
De regresso a Aldeia da Ponte procure o Bar 27, saboreie
uma jeropiga caseira e ganhe apetite para, no restaurante O Carril, no cruzamento das
Batocas, manjar o suculento arroz de lebre, que previamente encomendou.

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