03 Fev 00 Terras da Beira
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De rota batida
O vale de Aldeia da Ponte
Paulo Leitão Batista

FOTO Quando a ti Ronda, mulher vergalhuda de Alfaiates, passou ligeira, de carrego às costas e com o filho de tenra idade ao dependurão, de uma moita saltou o Guarda Fiscal que estava de vigia:

- Alto lá, mulher, larga a carga!

A contrabandista estacou assarapantada.

- Ó senhor Guarda, só fui mercar pão.

- Deixa-te de lérias e passa-me a sacola.

- Bem me tramou! Segure-me ó menos o bebé enquanto desamarro os atilhos do saco.

E o diligente guarda susteve ao colo o rosado catraio, acedendo ao pedido.

Foi o que a ti Ronda quis ver, que logo se botou à carreira pelo caminho, salvando a carga do rapinante, que o moço estava entregue à autoridade.

- Ó estafermo, onde vais?... E o galfarro?

- Cuide-me dele, que eu me vou para acautelar o sustento - disse enquanto fugia, deixando o guarda com a criança em choro convulsivo.

Passou-se esta acção no vale que se alonga de Aldeia da Ponte a La Albergueria de Arganan, velha passagem de contrabandistas e ponto de espera de guardas fiscais e carabineiros. Também local onde desembocava o caminho de Santiago que desde tempos medievos os peregrinos cruzavam.

É um vale amplo e aberto, de férteis pastagens e algum arvoredo. O caminho que o acompanha começa no Santo Cristo, segue em terrenos largos pelo Canchal do Senhor, cruza a raia, passa rente ao lugar onde havia a caseta dos «Crabineros», para depois meter por um talvegue, com cabeços a entalar a passagem.

O lameirão era terra de logradouro, a que todos tinham acesso para pascigo do gado. Dali se rompia a buscar um pão ou um pingo de azeite à outra banda da fronteira, que para o contrabando de maiores cuidados outros caminhos mais escusos havia.

O velho caminho deu lugar a uma via com alcatrão, hoje muito calcada por camiões que pretendem aproveitar a boa estrada que em terras de Espanha segue para Ciudad Rodrigo.

Se vier a Aldeia da Ponte entre no interior do povo, nas suas muitas e pequenas ruelas e delicie-se a olhar o casario antigo desta bela aldeia raiana. Visite o velho colégio, onde foi pedagogo o Frei Bento Menni. Não deixe de admirar o interior da Igreja Matriz. Depois arremeta para o Santo Cristo, e daí siga pelo vale, a caminho de Espanha. Aproveite a amplidão de vistas e repare na beleza das tapadas com carrasqueiras e giestas negrais. Ouça o silêncio dos lugares e imagine os panoramas de antigamente quando os caminhos e os prados eram prenhes de gente em azáfama: lavradores arando alqueives, pastores silvando às piaras, guardas patrulhando a raia, contrabandistas alapardados para sob o lusco-fusco passarem as cargas. Idealize a revoada que havia nos anos cinquenta quando o «Raul da Casaca Azul», major da Aviação natural de Aldeia da Ponte, ali aterrava com a avioneta para gáudio da canalha e também da gente graúda.

Em La Albergueria de Arganan vá a compras nos típicos comércios. Não se esqueça das galhetas, do trigo de torno e duma garrafa de conhaque Pedro Domec.

De regresso a Aldeia da Ponte procure o Bar 27, saboreie uma jeropiga caseira e ganhe apetite para, no restaurante O Carril, no cruzamento das Batocas, manjar o suculento arroz de lebre, que previamente encomendou.


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