02 Jul 98 Terras da Beira
Destaques
Editorial
Opinião
Guarda
Região
Política
Cultura
Sociedade
Desporto
Agenda

Pesquisa
Arquivo

Forum
Dossiers
FAQ

Contactos
Ficha Técnica
Assinar
Links
Email

Cultura
«Quem lê, lê-se»

Uma conversa informal à volta dos livros, da leitura, da literatura. Manuel António Pina, jornalista e escritor, voltou à Guarda de onde é natural, às memórias, para falar do que escreve, de outras escritas e...da vida.

Integrado na iniciativa "Palavras Vivas–Livros & Leituras", que amanhã termina na câmara, este encontro na Segunda-feira passada foi numa breve viagem ao fantástico mundo das letras, de quem as produz, das motivações, das aventuras e das razões por que se escreve. Como se faz um escritor? Para esta pergunta, à qual Manuel António Pina (MAP) não se livra em encontros com crianças (que faz com frequência já que parte da sua obra é a elas dedicada), não há receitas, mas circunstâncias. E a primeira é a leitura desde cedo. Pelo menos foi assim com MAP, que aos 9 anos leu "A vida sexual", de Egas Munis, que encontrara casualmente em sua casa. Que começo!!!

Num dia de trovoada, tinha então entre 6 e 7 anos de idade, ajoelhou-se numa cadeira e escreveu o primeiro poema, não sobre a trovoada que o apavorava, mas sobre "Milagre das Rosas", da Rainha Santa Isabel. Daí para a frente a criação literária ocupou a sua vida e, afinal, a de quem o lê. Na sua vasta obra aparece o que normalmente se chama "literatura infantil" destinada às crianças. Mas interroga-se o autor, e deve o leitor fazer o mesmo, se esta distinção tem lógica. Quando é que o homem é de facto adulto? «O homem só se torna adulto na morte» sustenta MAP. Sob o ponto de vista psicológico, «o homem é uma criança eterna». Por estas e por outras, e porque o livro é um mundo infinito de múltiplas realidades aos olhos de cada leitor, é que o autor deixa esta frase exemplar:«Quem lê, lê-se».

Os jovens e a leitura

O problema da leitura, e do espaço que ela ocupa na sociedade actual, foi de resto o mote para mais conversas, ou tertúlias, deste evento que conseguiu, afinal, o que queria: pôr as pessoas a falar da leitura reforçando assim o carácter cultural do livro.

Na mesma tarde as conversas rumaram para os jovens e a leitura. Mais uma vez num figurino informal, uma circunferência de gente, e o confronto de questões e problemas que dariam pano para mangas. Afinal os jovens lêem ou não? E se não de quem é a culpa? É só da televisão, do «encharcamento» das imagens, como alguém referiu nas conversas? Não só. Basta o exemplo de Manuel António Pina para concluir que tudo deve começar na idade "genial". Começar cedo a ler, e a brincar com as palavras, é o remédio. Para que os professores não se queixem de «alunos analfabetos», como ali deixou expresso um docente do 12º ano de escolaridade. Nos primeiros anos de vida devem então orientar-se as crianças para o prazer do espaço à sua volta, do diferente, da descoberta, do encantamento da leitura, sem forçar. Um trabalho que cabe cada vez mais ao ensino pré-primário e, claro, à família.

A selecção do que hoje se deve ou não consumir, numa altura em que se fala de geração alimentada pela TV, é um problema para o qual a criança deve ser preparada. Mas, para Antonieta Garcia, professora de português e historiadora, quando se fala e culpa a televisão do esvaziamento cultural há que levantar uma questão: « A imagem atrofia ou estimula a imaginação?». Pense o leitor na resposta e discuta-a, por exemplo, com o seu filho retirando exemplos da televisão que nos entra pela casa dentro.

Mas não terá também a escola responsabilidade no que hoje se passa ao nível da formação dos jovens e da hipotética falta de leitura? Antonieta Garcia sustenta que é preciso acabar com a «praga de aulas pré-fabricadas» assim como «resumos intragáveis» de obras essenciais que retiram todo o prazer da leitura. Esta escola de massas, desumanizada, «não ensina os alunos a ver, a produzir para aprenderem a criar», conclui Antonieta Garcia.

E se «o essencial é invisível aos olhos», como alguém disse, é preciso continuar a questionar, questionar sempre. E para hoje está marcada mais tertúlia sobre a "Internet versus livro" para a qual foram convidados Maria José Abrunhosa, António Ferreira, Aires Dinis, Victor Afonso e César Prata. Hoje e amanhã realizam-se os dois últimos ateliers para crianças, um dedicado ao trabalho em gesso, orientado por António Oliveira, e outro como brincar com bolas de sabão orientado por Élia Fernandes.

Victor Amaral

Voltar a Secção de Cultura


Diga o que pensa sobre este Artigo:

Gostei

Concordo

Comentários

Autorizo a eventual publicação dos meus comentários no Semanário Terras da Beira.

Nome

Email

Nota: Se o desejar, pode fazer os seus comentários no Forum de Discussão do TB.