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«Quem lê, lê-se»
Uma conversa informal à volta dos livros, da leitura,
da literatura. Manuel António
Pina, jornalista e escritor, voltou à Guarda de onde é
natural, às memórias, para falar do que escreve, de
outras escritas e...da vida.
Integrado na iniciativa "Palavras
VivasLivros & Leituras", que amanhã
termina na câmara, este encontro na Segunda-feira
passada foi numa breve viagem ao fantástico mundo das
letras, de quem as produz, das motivações, das
aventuras e das razões por que se escreve. Como se faz
um escritor? Para esta pergunta, à qual Manuel António
Pina (MAP) não se livra em encontros com crianças (que
faz com frequência já que parte da sua obra é a elas
dedicada), não há receitas, mas circunstâncias. E a
primeira é a leitura desde cedo. Pelo menos foi assim
com MAP, que aos 9 anos leu "A vida sexual", de
Egas Munis, que encontrara casualmente em sua casa. Que
começo!!!
Num dia de trovoada, tinha então entre 6 e 7 anos de
idade, ajoelhou-se numa cadeira e escreveu o primeiro
poema, não sobre a trovoada que o apavorava, mas sobre
"Milagre das Rosas", da Rainha Santa Isabel.
Daí para a frente a criação literária ocupou a sua
vida e, afinal, a de quem o lê. Na sua vasta obra
aparece o que normalmente se chama "literatura
infantil" destinada às crianças. Mas interroga-se
o autor, e deve o leitor fazer o mesmo, se esta
distinção tem lógica. Quando é que o homem é de
facto adulto? «O homem só se torna adulto na morte»
sustenta MAP. Sob o ponto de vista psicológico, «o
homem é uma criança eterna». Por estas e por outras, e
porque o livro é um mundo infinito de múltiplas
realidades aos olhos de cada leitor, é que o autor deixa
esta frase exemplar:«Quem lê, lê-se».
Os jovens e a leitura
O problema da leitura, e do espaço que ela ocupa na
sociedade actual, foi de resto o mote para mais
conversas, ou tertúlias, deste evento que conseguiu,
afinal, o que queria: pôr as pessoas a falar da leitura
reforçando assim o carácter cultural do livro.
Na mesma tarde as conversas rumaram para os jovens e a
leitura. Mais uma vez num figurino informal, uma
circunferência de gente, e o confronto de questões e
problemas que dariam pano para mangas. Afinal os jovens
lêem ou não? E se não de quem é a culpa? É só da
televisão, do «encharcamento» das imagens, como
alguém referiu nas conversas? Não só. Basta o exemplo
de Manuel António Pina para concluir que tudo deve
começar na idade "genial". Começar cedo a
ler, e a brincar com as palavras, é o remédio. Para que
os professores não se queixem de «alunos analfabetos»,
como ali deixou expresso um docente do 12º ano de
escolaridade. Nos primeiros anos de vida devem então
orientar-se as crianças para o prazer do espaço à sua
volta, do diferente, da descoberta, do encantamento da
leitura, sem forçar. Um trabalho que cabe cada vez mais
ao ensino pré-primário e, claro, à família.
A selecção do que hoje se deve ou não consumir,
numa altura em que se fala de geração alimentada pela
TV, é um problema para o qual a criança deve ser
preparada. Mas, para Antonieta Garcia, professora de
português e historiadora, quando se fala e culpa a
televisão do esvaziamento cultural há que levantar uma
questão: « A imagem atrofia ou estimula a
imaginação?». Pense o leitor na resposta e discuta-a,
por exemplo, com o seu filho retirando exemplos da
televisão que nos entra pela casa dentro.
Mas não terá também a escola responsabilidade no
que hoje se passa ao nível da formação dos jovens e da
hipotética falta de leitura? Antonieta Garcia sustenta
que é preciso acabar com a «praga de aulas
pré-fabricadas» assim como «resumos intragáveis» de
obras essenciais que retiram todo o prazer da leitura.
Esta escola de massas, desumanizada, «não ensina os
alunos a ver, a produzir para aprenderem a criar»,
conclui Antonieta Garcia.
E se «o essencial é invisível aos olhos», como
alguém disse, é preciso continuar a questionar,
questionar sempre. E para hoje está marcada mais
tertúlia sobre a "Internet versus livro" para
a qual foram convidados Maria José Abrunhosa, António
Ferreira, Aires Dinis, Victor Afonso e César Prata. Hoje
e amanhã realizam-se os dois últimos ateliers para
crianças, um dedicado ao trabalho em gesso, orientado
por António Oliveira, e outro como brincar com bolas de
sabão orientado por Élia Fernandes.
Victor Amaral

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